GilbertoHenrique0
Durante anos, escrevi cartas que nunca enviei. Algumas endereçadas a ela - ou melhor, à ideia dela. Outras, a mim mesmo, como se escrever fosse a única forma de lembrar que tudo de fato aconteceu. Ou quase aconteceu. Nunca as assinei, nem sempre usei nomes. Mas deixei pistas. Pequenas. O bastante para alguém que quisesse encontrar, encontrar.
Há duas mulheres nesta história. Uma que chegou primeiro e me virou pelo avesso. Outra que apareceu depois, como se fosse uma continuação mal explicada da primeira. Nunca estiveram no mesmo tempo, no mesmo espaço - mas há momentos em que juro ouvir uma falando pela boca da outra.
Elas não sabem. Talvez saibam. Talvez tenham sempre sabido. Mas o silêncio foi nossa língua comum.
A narrativa é uma busca. Quem lê precisa montar. Os nomes não são dados. As certezas, também não. O que existe são vestígios: gestos, lembranças, palavras que escaparam. E as cartas. Sempre as cartas. Como se, ao relê-las, eu pudesse enfim entender: quem foi ela? Ou... quem foram elas?
E, principalmente: quem fui eu diante delas?