ZaraPetresku
Melissa Schulman não chegou ao Hospital São Gabriel para recomeçar a vida. Chegou para salvar o que restou da própria carreira.
Aos vinte e sete anos, depois de abandonar uma residência cercada por rumores que prefere não explicar, ela passa em primeiro lugar em um novo processo seletivo e faz a si mesma uma promessa simples: trabalhar, estudar e não chamar atenção. O plano dura até seu primeiro dia na UTI, quando a falta de um preceptor a coloca justamente sob a supervisão da Dra. Suzana Bartzen.
Chefe da unidade, infectologista, intensivista e uma das médicas mais respeitadas do hospital, Suzana construiu a vida em torno de três coisas: competência, controle e distância. Dois anos depois de sofrer o maior trauma da vida, Suzana não demonstra qualquer interesse em permitir que alguém se aproxime o suficiente para alterar a ordem que levou tanto tempo para reconstruir.
Melissa acha Suzana rígida demais. Suzana acha Melissa envolvida demais. Uma acredita que o médico precisa saber manter distância para continuar lúcido; a outra se recusa a esquecer que existe uma pessoa por trás de cada leito. Entre rounds, prescrições, plantões e discussões de conduta, o conflito entre as duas começa a produzir algo que nenhuma esperava: respeito.
Quando aquilo que existe entre elas deixa de poder ser explicado apenas pelo trabalho, aproximar-se não é uma decisão simples, e se afastar talvez não seja suficiente.
Porque prontuários registram sintomas, exames, diagnósticos e condutas. Há coisas, porém, que nenhuma evolução médica é capaz de contar. Duas médicas. Duas formas de sobreviver. E tudo aquilo que nenhuma delas saberia registrar num prontuário.
Um slow burn maduro, profundo e com camadas reais o suficiente para provocar reflexões por um bom tempo.