RodrigoVinagre
Paulo já não tem sonhos ou carteira assinada, mas lhe sobram doenças e contas a pagar. Jornalista vítima de um passaralho que levou seu último emprego de merda (porém com direitos e seguro saúde), há cinco anos trabalha como freela, em esquema home office, gerenciando as redes sociais de uma gigante gringa do varejo online. Temendo ser substituído por bots de atendimento automatizado, das 6h às 16h o foco é total no monitor de 14 polegas.
Em frente à sua mesa, uma janela 2x2 mostra um bairro em processo de gentrificação. Antigos botecos, kilões, padocas e pequenas casas geminadas, como a dele, vão dando lugar a chopperias, restaurantes, padarias gourmet e condomínios de prédios de alto padrão, aumentando o custo de vida na região hoje dominada por escritórios de grandes empresas. Quando o despertador tocou naquela manhã, Paulo pensou que seria só mais um dia; não o marco de sua própria transformação.
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