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Erick fitou o espelho, e a imagem que o encarava não era sua, mas a de uma besta primitiva e colossal. O lobo que o observava do outro lado do vidro não possuía cabelos dourados como os seus, nem os traços refinados da nobreza. Ele era bruto, feroz, os olhos brilhando como brasas sob a luz trêmula das velas. Quando a criatura abriu a boca num rosnado profundo, expondo presas pontiagudas, um arrepio subiu pela espinha de Erick.
- Tu a amas? - a voz soou como um trovão abafado.
Erick susteve o fôlego, as mãos cerradas sobre a madeira entalhada da penteadeira.
- Mais que a mim mesmo - murmurou. - Fomos prometidos. Não há reino sem sua rainha.
A fera ergueu a cabeça, como quem fareja a verdade.
- E há quanto tempo a amas?
Erick baixou os olhos, tomado por lembranças distantes. Os risos infantis nos jardins do castelo, as promessas sussurradas sob as estrelas, antes mesmo que soubesse nomear o que lhe ardia no peito.
- Antes de compreender tempo ou amor.
O lobo estreitou os olhos.
- Então por que o cheiro dele me instiga a tomar o controle?
O ar tornou-se pesado. Erick cerrou os punhos, desviando o olhar. Ele sabia a quem a fera se referia. Não ousaria pronunciar seu nome.
- Eu... não sei - mentiu.
O lobo inclinou a cabeça, os olhos faiscando em um tom de azul intenso.
- A quem amas, Erick? Qual dos dois?
Seu coração trovejou dentro do peito. O ar tornou-se pesado, espesso, difícil de respirar. Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra se formou. O lobo rosnou, impaciente.
- Os dois - admitiu, enfim, sua voz pouco mais do que um sopro entre os lábios.
A fera ergueu os lábios sobre os dentes afiados, um rosnado baixo vibrando no ar.
- Tu tens de escolher.
Mas Erick não podia.
Não podia, pois sua alma estava dilacerada entre duas metades, ele nunca escolheria entre Mai ou Victor.