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Em 1908, há uma aldeia que não consta em mapas, nem em preces comuns. Um lugar onde o tempo apodrece devagar e a fé não se curva diante de santos - mas diante da Coisa.
Ali, a Coisa é Deus. Um nome sussurrado com medo. Um símbolo antigo, venerado no silêncio, alimentado por promessas quebradas, sacrifícios não nomeados e amores que jamais deveriam existir.
É nesse solo doente que vive Melanie, uma mulher feita de ausências. Carrega perdas que não encontram sepultura e um coração que ainda insiste em bater, mesmo quando tudo ao redor já aprendeu a fingir vida. Observada por olhos que sabem demais, ela sobrevive entre rituais que deformam a esperança e regras que transformam obediência em salvação.
Na aldeia, nada é livre. Nem os passos. Nem os pensamentos. Há regras para respirar, para rezar, para existir. Ela pode deixar a aldeia apenas uma vez por mês - sempre observada, sempre medida, como se a liberdade fosse um pecado que precisa ser contado. O líder governa como um pastor de sombras, e cada cerimônia reafirma uma verdade cruel: ali, existir é servir.
Mas algo começa a rachar.
Melanie percebe que a morte não é um fim naquele lugar. É apenas um estágio. Alguns corpos permanecem. Algumas vozes retornam. Alguns amores voltam... diferentes.
E quando o sentimento proibido floresce - silencioso, obsessivo, inevitável - ela descobre que amar pode ser o ritual mais cruel de todos. Um ato de fé. Uma condenação lenta.
Quando Melanie se vê presa a um romance que desafia não apenas as regras da aldeia, mas a própria vontade da Coisa, sua obsessão se torna um fio esticado entre a luz e o abismo. Quanto mais ama, mais sangra. Quanto mais tenta fugir, mais fundo afunda. Porque ali, o horror não se esconde nas sombras: ele se senta à mesa, segura sua mão e diz que tudo é para o seu bem.
Porque quando um deus aprende a usar o rosto de quem você ama, a linha entre devoção e loucura desaparece - e o renascimento cobra um preço