Yel_Anguis
"Eu não conheço meu rosto, não sei a cor dos meus olhos e não sei como é o meu cabelo. Eles raspam para que eu não arranque fio por fio"
Na imensidão fria da Instalação Corvus, o tempo não é medido por horas, mas pelo ciclo das refeições e pelo som das correntes que mordem os pulsos. Eu sou a "Criatura", um feixe de ossos e cicatrizes profundas, habitando um corpo que parece um mapa de fissuras e erros. Minha voz foi roubada por runas de contenção, e minha boca, selada por uma máscara de metal celestial sustentada por três pregos de ferro - Gabriel, Miguel e Rafael - que mastigam a base do meu crânio.
Dizem que sou feita de pecados.
Sob o olhar sombrio e a beleza dolorosa de Caym, meu orientador e carcereiro, sou treinada para ser o Instrumento Perfeito. Entre lições sobre anjos e deuses que nunca conheci, aprendo a lutar para uma guerra que não entendo, enquanto tento ignorar o cheiro de vazio que emana do metal em meu rosto.
Mas o silêncio é mais barulhento que o som. E através das feridas brilhantes no mundo escuro lá fora, começo a sentir o eco de algo que fui antes do sol tocar o barro. Algo imenso, imaterial e traído.
Eles me deram um lar, roupas e um nome que não é meu. Mas eles esqueceram que o espírito não tem lugar, e que mesmo do inferno, pode-se desejar o céu.
Eu não sou o nada.
Eu não sou o vazio.
Mas eu não devo confiar neles.