MARCELOBRETTON
Todas as noites, às 2h17, Elias Varga embarca em um trem que não deveria existir.
Restaurador digital de cadáveres para funerárias, Elias passou anos reconstruindo rostos esmagados, queimados e mutilados para que famílias enlutadas pudessem fingir, por alguns minutos, que a morte ainda possuía alguma dignidade. Consumido pela insônia após o suicídio inexplicável da esposa, ele descobre acidentalmente uma estação subterrânea escondida sob a cidade - limpa demais, silenciosa demais, impossível demais.
Lá embaixo, um trem sem maquinista atravessa túneis que parecem respirar.
Dentro dos vagões, passageiros conversam sobre receitas, novelas e preços de mercado enquanto seus corpos apodrecem lentamente diante dos olhos de Elias. Mulheres com o crânio aberto. Homens sem rosto. Crianças rastejando no teto. E algo pulsando sob a estrutura metálica da composição.
Mas o verdadeiro horror não está nos corpos mutilados.
Está na naturalidade bizarra.
Quanto mais Elias retorna ao trem, mais a realidade da superfície começa a perder consistência. E quando os mortos começam a reconhecer seu nome, ele percebe uma verdade aterradora:
talvez aquele trem não esteja transportando passageiros.
Talvez esteja esperando por ele há muito tempo.