akumawings
Em uma cidade portuária de invernos longos e luz cinza, onde os canais refletiam o céu com a mesma indiferença com que o tempo passava, vivia uma jovem chamada Ethica Spinoza.
Ela havia sido separada de sua comunidade ainda adolescente. Não por um crime de sangue ou de palavra, mas por uma forma de olhar o mundo que os outros consideravam perigosa. Desde então, Ethica habitava um pequeno quarto no andar alto de uma casa estreita, perto do porto. Ali, ela trabalhava com precisão quase ritualística: polia lentes de vidro até que a transparência se tornasse quase invisível, até que a luz passasse através delas sem distorção. Era um ofício silencioso, repetitivo, e de certa forma cruel consigo mesma. Cada lente levava dias. Às vezes semanas. E quando terminava, ela as entregava a um intermediário sem nunca perguntar para quem seriam usadas.
A cidade a tratava com uma distância respeitosa e fria. As pessoas sabiam que ela existia, mas raramente a saudavam. Ethica não se queixava. Preferia a solidão a qualquer afeto que viesse misturado com pena ou curiosidade. Nos finais de tarde, quando a luz se tornava baixa e azulada, ela sentava à janela e observava o movimento dos navios, a forma como a água se quebrava e se recomponía, a maneira como as pessoas atravessavam as pontes como se suas vidas fossem separadas umas das outras. Com o tempo, começou a notar que nada daquilo era realmente separado.
Havia uma ordem quieta em tudo.
Não uma ordem moral, nem uma ordem que prometesse justiça ou conforto. Apenas uma necessidade profunda, quase musical, que ligava o vento à onda, a onda à madeira do cais, a madeira ao homem que a pisava, e o homem ao pensamento que ele nem sabia estar pensando. Ethica começou a escrever. Não diários sentimentais, mas proposições. Definições. Demonstrações. Escrevia como quem constrói uma estrutura que não pode ser abalada por sentimentos. E, quanto mais escrevia, mais o mundo ao seu redor parecia perder suas ar