luscaswriter
Todas as noites, às 22h40, alguma coisa cai de uma janela.
Na primeira noite de Lívia no Edifício Orfeu, é apenas um sapato.
Depois, uma fotografia.
Uma chave.
Uma boneca.
Uma aliança.
Objetos comuns, pertencentes a pessoas comuns.
Só existe um problema:
ninguém admite tê-los jogado.
Recém-saída de um relacionamento de quase oito anos, Lívia se mudou para o Orfeu para fazer exatamente aquilo que todo mundo manda depois de um fim:
seguir em frente.
Ela só não é muito boa em se desfazer das coisas.
Quando começa a recolher os objetos que aparecem no pátio, percebe que as quedas obedecem a um padrão.
O mesmo horário.
22h40.
Sempre.
E então as medidas do prédio começam a mudar.
Um corredor ganha alguns centímetros.
Uma parede aparece onde não deveria caber.
O elevador demora tempo demais entre dois andares.
E uma porta leva Lívia a um lugar que simplesmente não existe na planta do edifício.
Talvez alguém esteja entrando nos apartamentos.
Talvez os moradores estejam mentindo.
Talvez exista alguma coisa dentro do Orfeu que ninguém deveria encontrar.
Mas Lívia ainda está fazendo a pergunta errada.
Porque o verdadeiro problema não é descobrir quem está jogando as coisas fora.
É descobrir...
o que acontece quando o prédio decide que a próxima coisa a ser descartada é você.
NÃO JOGUE NADA FORA
Algumas coisas precisam ir embora.
Outras precisam ficar.
Só não mude de ideia às 22h40.