MARCELOBRETTON
Depois do colapso atmosférico, o mundo não acabou em guerra.
Acabou em transmissão ao vivo.
Nas fronteiras cobertas de sal de um lugar pós-humano, um festival clandestino percorre motéis decadentes, minas abandonadas e parques temáticos falidos transmitindo o espetáculo mais assistido da Terra: a humilhação íntima da própria espécie. Milhões acompanham tudo através de frequências piratas - automutilações ritualísticas, concursos de beleza sangrentos, pornografia litúrgica, cultos televisionados e performances onde a dor virou entretenimento absoluto.
Quando um fotógrafo forense chega para documentar aquele circo terminal, ele se vê arrastado para uma espiral de erotismo bizarro, fitas VHS amaldiçoadas, mascotes infantis recheados de cadáveres e uma seita obcecada pela destruição da vergonha humana.
Mas existe algo ainda pior escondido sob os refletores do deserto: uma transmissão secreta capaz de transformar trauma em espetáculo físico - e espectadores em participantes.
Entre jingles publicitários dos anos 80, cadáveres cobertos de glitter e cultos pop transmitidos para um planeta moribundo, CÃES ELÉTRICOS mergulha o leitor num horror lírico, decadente e hipnótico onde o verdadeiro apocalipse talvez tenha sido apenas o desejo desesperado de continuar assistindo.