Há casas que guardam segredos. Famílias que aprendem a sorrir entre ruínas. E pessoas - como eu - que já renasceram tantas vezes que esqueceram como era estar vivo pela primeira vez. Quando ele apareceu na nossa porta, ferido e sem memória, todos acharam que era o acaso. Só mais um perdido no mundo. Mas eu sabia. O jeito como ele olhava... não era novo. Era memória disfarçada de esquecimento. Meus irmãos o acolheram. Nick, com aquele brilho no olhar; Neil, com silêncio e compaixão; Charlotte, como quem brinca com uma faca. E eu... fiquei onde sempre fico. Observando. Contando os estilhaços. Porque essa casa, essa família, essa linha do tempo... Já se repetiu. E se repete. Como um disco riscado onde todo mundo finge que é a primeira vez - menos eu. Há olhos que surgem no escuro. Crianças que não deveriam existir. Animais que sabem demais. E memórias... que ardem quando tentam voltar. Eu não sei quem começou isso. Mas eu sei quem precisa acabar. E se isso significa morrer... de novo... então que seja. Porque alguém precisa quebrar esse ciclo. Alguém precisa lembrar. Mesmo que ninguém mais queira ouvir. Mesmo que custe tudo. Mesmo que sobre só o silêncio. E eu me recuso a esquecer.
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