Origami

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WpMetadataNoticeLast published Thu, Sep 28, 2017
Já era madrugada adentro. O ar estava gelado, fazendo par com a umidade do chão, já meio enlameado pela chuva reincidente. O Bairro Universitário era tão convidativo quanto bar em beira de estrada: simplório, meio caótico, mas acolhedor. Isso explicava o movimento ininterrupto mesmo àquela hora da noite. (...) As pessoas não se intimidavam com a chuva ou com o frio. Os grupos iam se formando e se desfazendo rapidamente, à medida que os planos mudavam ou que o dinheiro acabava. O ambiente não era propício para conversas mais elaboradas, as interações ficavam a cargo do destino, qualquer esbarrão era motivo suficiente para começar um papo, um oferecimento mútuo de cerveja, uma gargalhada despretensiosa. A liberdade do desconhecido é impagável, mas geralmente a coragem que a experimentação exige não é suficiente para que se abra os olhos no escuro sem saber o que esperar.
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Mudança

Havia um adolescente escritor tardio com uma paixão platônica e a mania de fantasiar quando escrevi esta novela, prepare-se para um melindre ridiculamente juvenil. E cerca de quatorze anos depois ali estava eu, diminuindo os passos enquanto me aproximava da insípida casa, cujos portões continuavam vermelhos, embora desbotados, e entrecortados horizontalmente, possibilitando a vista do quintal por essas largas fendas. Que curiosidade me atingiu, como um raio que saiu curvado da casa repentinamente reviçada. Curiosidade em saber se ele ainda morava lá. Em relembrar seu rosto, realmente apagado pelo tempo, só vivia na minha lembrança o fato da beleza e da atração, e agora ele por inteiro deveria portar uma beleza deslumbrante. Apesar de ter ficado ligeiramente animado com esse pensamento sensual, eu já imaginava que ele não era o que eu era, tal como demonstrara na época; eu estava de fato curioso em saber apenas esse fato: aquelas pessoas daquela época ainda moravam ali? Se eu tivesse com quem apostar, apostaria que não.

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