Amor Escarlate

Amor Escarlate

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Poli ou Ana? Eu titulei. Fiz contrário ao que sempre faço porque cansei de cada pegada incerta das suas mãos sobre mim. Cansei da monotonia de uma vida a dois que não se enxergava. As viagens de mais de 50 km seriam consideradas fantásticas - só que não, nunca saímos de Ultralina. De duas ou mais chances, chorar era meu esporte favorito. O refúgio de uma alma verdejante e florida em quase todos os dias de uma história a dois, planejada apenas por um. O coração seguia sem saber aonde ir, queria apenas sentir em demasia sempre que possível e o ato era como uma facada no peito; sangrar não faz tanto sentido, não quando não tenho a intenção de morrer. Os pretos nos brancos eram riscados sempre que brigávamos, riscos grossos e marcantes. Um traço ali, outro aqui e o coração se via quase todo enrugado. O branco se misturava em uma pretidão ainda mais escura, se invadindo mais fundo que o normal. As cores nunca foram bem-vindas nessa vida de crianças presas em um recreio sem fim. Sei que deveria dizer o que sinto em cada segundo do meu dia, que deveria insistir na ideia de que ainda te amo como os lírios espalhados pelo campo amam a terra; ou que o amor que sinto aqui é basicamente um monumento de almas. Sei que as viagens em mais de 50 km deveriam ser guardadas em caixas identificadas como "memórias de um amor"; e chegar, se alastrando entre minhas entranhas seria o meu fim. Fim de uma velha "Poliana" e começo de nova eu; mas não consigo aceitar que todas as "Anas" desse mundo se juntaram a mim, por isso desse sentir demais. Não consigo admitir que o nome que tenho já é sobrecarregado e tê-lo é um fardo. O "Poli" é muito: muito de muitas. Por isso descarto o "Ana" e peço que me chame de "Poli", apenas.
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Tudo começa com o primeiro disparo. O sangue corre frio em suas veias, o suor escorre pelas suas têmporas e até a pessoa menos religiosa se pega rezando para que tenha sido da própria arma. Marginais, traficantes, assassinos, crimes todos os dias. Essa era a adrenalina inesgotável de meter o pé onde nem a polícia convencional conseguia chegar. Para aqueles que não se acovardam diante da frágil linha tênue entre a vida e a morte, bem-vindos ao Batalhão de Operações Policiais Especiais, mais conhecido como BOPE, onde todos têm seus lugares reservados no inferno. Eu bem sabia a complexidade desse caminho e que seguir por ele não me daria escolha a não ser ir até o fim. Eu não era do tipo de pessoa que "pedia 'pra sair", e quando decidi vestir a farda preta, minha escolha morreu também. Apesar das dificuldades, eu não me arrependia. Quando o sistema te decepciona, você cria uma desconfiança que jamais desaparece, e é só questão de tempo até que se canse dele. Eu carregava uma desilusão tão profunda sobre os princípios que valorizei durante toda a minha carreira, que não vi outra opção a não ser correr em direção ao perigo. Porque ou você faz parte da solução, ou você faz parte do problema, e eu já não aguentava mais esperar. Pensei que fazer justiça com minhas próprias mãos traria de volta o meu espírito, mas quem dera fosse tão fácil. As coisas costumam seguir rumos muito difusos, e por ironia do destino, senti-me viva por alguém que carregava uma caveira no peito. Missões dadas, eram missões cumpridas, mas eu estava travando uma batalha diferente. E aquela guerra de corações poderia ser a minha ruína. Ou a minha salvação.

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