Uma Saudade Sua

Uma Saudade Sua

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Amanheceu. Meus dedos cansados seguram a caneta que uso para escrever estes versos. Meus olhos sonolentos encaram o papel de carta e em meu pensamento passam-se inúmeras coisas, dentre elas o fato de que eu deveria estar dormindo. Mas o que posso fazer se todas as vezes que me deito na cama fria e fecho meus olhos, o que me vem é nada de sono e tudo de você? E eu preciso versar você. Preciso escrever sobre o seu sorriso, sobre seus cabelos que eu insistia em bagunçar ou sobre seus olhos castanhos que eu jamais pude decifrar. Preciso transcrever o que há dentro do meu coração para as folhas, para ver se arranco um terço de você de dentro de mim. Portanto, meu amor, deixo em forma de cartas tudo aquilo que sei e que sinto ao seu respeito. Deixo aqui todo o meu amor em forma de versos, versos estes que você jamais vai ler. Tudo isso porque eu sinto uma saudade sua, uma saudade tão grande que não cabe em mim e transborda. Uma saudade que só você não vê. Uma saudade sua.
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Há quem diga que o tempo apaga. Que a idade rouba da memória aquilo que o coração um dia julgou inesquecível. Não é o meu caso. Aos oitenta e tantos anos, com a lucidez intacta, a saúde generosa e uma casa onde o silêncio não dói, mas sussurra, posso afirmar: o que foi vivido com verdade não se perde. Apenas muda de lugar. E às vezes, quando menos se espera, volta - com um perfume antigo, uma música no rádio, uma carta nunca enviada. Sou D.R. Sousa. Não escrevo por saudade apenas. Escrevo porque a memória me é fiel. Porque há nomes que ainda vivem comigo - nas entrelinhas, nos detalhes que ninguém mais vê. Amores que não se apagaram, mesmo que os rostos tenham se diluído nas brumas dos anos. Alguns passaram como cometas - intensos, breves e impossíveis de esquecer. Outros ficaram por longas estações, me ensinaram a dançar com o caos e a chorar em silêncio. Houve os que se foram sem saber que os amei. E os que ficaram dentro de mim mesmo depois de partirem. Lembro de muitos com uma clareza quase dolorosa - os olhos, os risos, até os silêncios. Lembro também das mágoas, dos desencontros, das promessas não cumpridas. Mas me recordo, acima de tudo, da beleza de ter sentido tudo isso. Escrevo agora não por arrependimento, mas por gratidão. Por ter amado. Por ter vivido. E por ainda lembrar - com ternura - de cada um deles...

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