Nunca pensei que ficaria ajoelhado na frente dele, e as vezes que isso me ocorreu, imaginei sendo em um lugar bem clichê, porém bem romântico.
Se bem que terror, era a única coisa que eu tinha em mente no momento. Temia por não sair vivo de lá, ou pior...
Mas o que seria pior do que morrer?
Viver como um nada, apenas um traficante, meia boca, de feijão, é ruim. Ser pego por outros traficantes maiores, enquanto você tenta assaltá-los, também é muito ruim. Porém tem uma coisa que supera mesmo até sua morte.
Você estar de joelhos no chão de um ferro-velho, mas não qualquer ferro-velho, pois esse fica a beira de um penhasco onde os carros são jogados, a quilômetros de alguém que iria te ouvir gritar, enquanto alguém te segura apontando uma arma na sua cabeça.
Mas relaxe essa na é a pior parte.
A pior parte é que você está em frente à pessoa que ama e não pode fazer nada, tem que assistir a pessoa que você ama morrer. E isso, isso é pior que morrer....
Porém as vezes, a vida, irônica, sádica e perversa, tem seus cinco minutos de bondade e te dá uma segunda chance, de formas estranhas.... Como, por exemplo, te jogando em um loop temporal.
Ele me olhava como se tivesse acabado de me caçar - os olhos escuros cravados em mim, sedentos, enquanto o uísque girava lento no copo, como o sangue ainda fresco no chão entre nós. Sua respiração era densa, febril, quase tão quente quanto a vida que acabáramos de arrancar.
O cheiro metálico da morte se misturava ao perfume da sua pele, e eu... eu não conseguia respirar sem ele.
Ele era meu medo e minha redenção. Minha sentença e minha salvação. Estar ao seu lado era como cair num abismo e desejar que ele nunca tivesse fim. Eu me agarrava a ele como quem se afoga na própria insanidade - e ainda assim implora por mais.
Ele me matou antes de qualquer outro. Quando me olhou daquele jeito. Quando sussurrou meu nome com aquela voz rouca, carregada de vício e poder. Eu não tinha mais corpo, nem alma. Só vontade. Vontade de tê-lo. De me perder inteiro nele.
O mundo morreu no instante em que o sangue respingou nas nossas mãos. E ali, entre a morte e o desejo, eu soube: eu precisava dele mais do que da droga, mais do que do ar. Se ele me deixasse, eu não sobreviveria nem à próxima batida do meu coração.
E ele sabia. E sorria.
Porque ele também precisava de mim. Doentio. Louco. Viciado. Meu.