Prólogo O ar de Goiânia era quente, úmido e carregado de uma liberdade que Paula nunca sentira necessidade de nomear - ela simplesmente a respirava. Mas, ao desembarcar em Teerã, ela percebeu que o clima não era o único choque térmico que enfrentaria. Havia uma barreira invisível entre o mundo que ela deixou para trás e o solo onde agora pisava. Onde ela via espaço para o diálogo, encontrava silêncio; onde via parceria, encontrava um manual de conduta escrito muito antes de ela nascer. A casa que ela acreditava ter escolhido com Amir parecia, aos poucos, um território onde sua própria essência era estrangeira. Paula não chegou ao Irã procurando uma guerra, mas descobriu que, para não se perder completamente naquelas ruas, ela teria que desafiar as fundações daquilo que seu marido chamava de "tradição". Entre o cerrado goiano e as montanhas persas, uma rachadura começou a se abrir. E a pergunta que pairava no ar, tão pesada quanto o novo estilo de vida que ela tentava vestir, era simples: até onde se pode remodelar um lar sem que ele desmorone sobre quem está lá dentro? Ela estava prestes a descobrir que, às vezes, o maior choque cultural acontece dentro do próprio quarto. E, diante de muros tão antigos, uma dúvida inevitável a perseguia: será o amor mais forte que a cultura e a tradição persa?
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