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"Confiro mais uma vez o jantar pronto e servido sobre a mesa. A superfície de vidro embaçado pelo calor emitido por algumas travessas. Encaro o relógio prometendo pela sétima vez que é a última que o encaro. Já se passa das duas e ele ainda não chegou para o jantar do nosso aniversário de casamento. De repente ouço risadas, o tilintar de um molho de chaves e portas batendo. Ao fundo o som de alguns objetos provavelmente estilhaçados por todo o chão. Me levanto, deslizando as mãos pelo meu vestido, para que não se amasse por nada. Gostaria de estar impecável para quando ele chegasse. A meia luz que preparei deixava o ar do apartamento sedutor até mesmo para mim, que sou completamente cética nestas questões. Mais um estrondo. Decido ir até a janela, empurrando um pequeno pedaço do tecido da cortina que cobria a visão para o apartamento da frente. Seu cabelo estava bagunçado e com certeza aquela tatuagem em suas costas não era temporária. A risada que antes ouvira pertencia à mulher sob ela, sem qualquer inibição ou receio de um flagra. Pude enxergar algumas marcas em sua cintura. Afinal, o meu apartamento é literalmente de frente para o dela. E não é como se ela se importasse em ser pega."
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Havia um adolescente escritor tardio com uma paixão platônica e a mania de fantasiar quando escrevi esta novela, prepare-se para um melindre ridiculamente juvenil. E cerca de quatorze anos depois ali estava eu, diminuindo os passos enquanto me aproximava da insípida casa, cujos portões continuavam vermelhos, embora desbotados, e entrecortados horizontalmente, possibilitando a vista do quintal por essas largas fendas. Que curiosidade me atingiu, como um raio que saiu curvado da casa repentinamente reviçada. Curiosidade em saber se ele ainda morava lá. Em relembrar seu rosto, realmente apagado pelo tempo, só vivia na minha lembrança o fato da beleza e da atração, e agora ele por inteiro deveria portar uma beleza deslumbrante. Apesar de ter ficado ligeiramente animado com esse pensamento sensual, eu já imaginava que ele não era o que eu era, tal como demonstrara na época; eu estava de fato curioso em saber apenas esse fato: aquelas pessoas daquela época ainda moravam ali? Se eu tivesse com quem apostar, apostaria que não.

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