Os Feios

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WpMetadataNoticeLast published Tue, Oct 22, 2019
Não dá para saber como tudo isso começou, as coisas são assim desde que eu me lembro. Dizem que depois da guerra o mundo teve que começar do zero. E o mundo decidiu começar nos condenando por simplesmente nascer. Nessa sociedade, beleza é tudo. Beleza é sinônimo de coragem, de inteligência, de gentileza, e principalmente poder. A beleza extrema lhe leva para o topo da pirâmide, beleza é a moeda. E é tudo que nós não temos. Nós somos a ralé, as aberrações, os amaldiçoados, aqueles que você conhece como Impuros. Estamos varrendo seu chão, construindo suas torres, comendo suas migalhas. Somos os manetas, os anões, os aleijados, e vocês pisam em nossas cabeças simplesmente porque podem pisar. Mas não por muito tempo. Em breve, tudo vai mudar, porque descobrimos o que vocês mais temiam. Sabemos do seu segredo sujo, sua fraqueza. E faremos questão de deixar que todo o resto do povo saiba. Essa luta não começou conosco, mas vamos terminá-la. E vocês verão o que é realmente feio.
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Você não queria estar aqui lendo esse monte de merdas; e, talvez, eu também não queria ter escrito essas coisas. Porque se existisse algo que fizesse-nos sentir úteis, a mísera possibilidade de possuir essa coisa, de bom grado, estaríamos doando até a nossa alma, ou o que restou dela. Não estaríamos perdendo tempo lendo essas coisas. Por favor, caro leitor, não demonizem os meus pensamentos, nem as minhas lembranças. O diabo é coisa séria, e eu não ousaria brincar com alguém que sente prazer em ter a companhia de outras pessoas; mas também é preciso ter o mínimo de decência, e vocês hão de concordar comigo, não é preciso trazer a tona a sua moralidade religiosa, subjugar palavras de um tolo que não tem nada para lhes oferecer. Eu tenho uma cabeça doente, a minha alma foi forjada pelo fogo da tristeza e da solidão. Isto não é um manifesto contra toda a distopia criada pela minha memória. São, apenas, palavras. Palavras soltas tentando remontar a minha memória; essa, sempre desconexa, que coexiste pelas lembranças de um passado desordenado, um presente difuso e um futuro, indecentemente, incerto. Hoje, eu já não sei mais o que eu sou, mas, um dia, eu já fui o Esteban.

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