POEIRA DE QUARTZO E LÍTIO

POEIRA DE QUARTZO E LÍTIO

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WpMetadataNoticeLast published Thu, Feb 27, 2020
Há uma tênue linha entre o passado e o presente, que balança ao trazer à tona lembranças enraizadas no fértil solo da memória. Por vezes, esta linha permanece estática, à espera de um estímulo, para que a olvidada memória se reestabeleça, ligando fatos, fio a fio, de ponta a ponta, trazendo-me imagens, sons e cheiros, aquecendo o coração e a alma, criando uma ebulição de lembranças e sentimentos. Tive uma infância e uma adolescência felizes, ora vividas na minha terra natal, Tomé-Açu, quando ainda media o tempo utilizando os meus relógios movidos a cristais de quartzo, Casio ou Q&Q Quartz, Ora na capital Belém. Já adulto, revezei meus anos entre Tomé-Açu, Belém e Castanhal, esta última foi a cidade que me adotou como filho durante os quatro anos e meio que lá estive cursando a Universidade Federal. Daquele período até o atual passei a medir o meu tempo com base no lítio presente nas baterias dos equipamentos modernos. Quando criança controlava o meu tempo de ficar na rua brincando baseando-me nos cliques dos ponteiros dos relógios, entregando-me ao sabor do tempo, desejando que ele não se passasse com rapidez, apesar da precisão inexorável do quartzo em cada clique. Hoje, adulto, sou controlado pelos relógios do computador, do tablet, do celular, do smartwatch e dos relógios modernos, movidos a lítio. Tornei-me um refém de mim mesmo, em minha própria casa. Já percebo a poeira do tempo a acumular-se nos ponteiros e nos displays, travando a vida e os ossos. Porém, ainda resta-me uma saída - escrever! - e que o humor torne-se o alento nas horas de insônia e o bálsamo nas feridas cotidianas. Neste singelo livro estão reunidas algumas crônicas, como experiências e resultados, de quase vinte anos de rústicos escritos e anotações, de mãos dadas, mas sem compromisso com a verdade, ora primando pelo lirismo e frequentemente pela ironia e pelo sarcasmo. Leia sem moderação. UM GRANDE ABRAÇO!
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Mudança

Havia um adolescente escritor tardio com uma paixão platônica e a mania de fantasiar quando escrevi esta novela, prepare-se para um melindre ridiculamente juvenil. E cerca de quatorze anos depois ali estava eu, diminuindo os passos enquanto me aproximava da insípida casa, cujos portões continuavam vermelhos, embora desbotados, e entrecortados horizontalmente, possibilitando a vista do quintal por essas largas fendas. Que curiosidade me atingiu, como um raio que saiu curvado da casa repentinamente reviçada. Curiosidade em saber se ele ainda morava lá. Em relembrar seu rosto, realmente apagado pelo tempo, só vivia na minha lembrança o fato da beleza e da atração, e agora ele por inteiro deveria portar uma beleza deslumbrante. Apesar de ter ficado ligeiramente animado com esse pensamento sensual, eu já imaginava que ele não era o que eu era, tal como demonstrara na época; eu estava de fato curioso em saber apenas esse fato: aquelas pessoas daquela época ainda moravam ali? Se eu tivesse com quem apostar, apostaria que não.

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