Ventos de Mágoa

Ventos de Mágoa

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WpMetadataNoticeLast published Sat, Jul 30, 2016
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Non-Fiction
Usar da escrita para registrar lembranças como estas aqui presentes não é uma invenção minha. Machado já eternizou o padrão com seu Brás Cubas, por exemplo. Acredito que algo que nos diferencie é que não conto minhas memórias, mas sim de outros. A história não sou eu, outro motivo de não me identificar ainda. Surgiu-me essa ideia num momento em que vagava por aí. Ao longe, sentada a um banco de praça, vi Malu cabisbaixa como sempre. O fato era comum, contudo algo despertou meu interesse. Ela estava inquieta, recordava do bumerangue, da cachoeira na fazenda, do episódio em Barra Bonita. Essa mistura do passado martelava em minha cabeça. Recordava, simultaneamente, tudo o que surgia na mente de Malu. As cenas apareciam como filme em minhas retinas. Sentia-me no lugar dos atos. Sentia-me viajando pelos anos, revivendo todo o caos e tristeza da gente humana, neste caso a dos quatro. Sentia-me comovido com essa nostalgia. Num ato digamos que de compaixão com aqueles, decidi começar a escrever o texto, que agora vaga pela mente de você, leitor que acredita ser essa história boa na sua formação de opinião. Tenho que dizer: é até bastante cativante viajar pelas memórias, restaurando-as e permitindo que mais gente as tenha para comover-se conjuntamente. Espero que lhe aconteça o mesmo. Em caso contrário, sugiro que não prossiga na leitura. Ou siga, caso deseje mesmo assim. O que quero passa longe de ser uma proibição a quem não se comove, não me entenda assim. Apenas digo que esse é meu objetivo com as recordações. Afinal, não correspondem à minha história. Poderia muito bem mantê-las em segredo. Preferi publicá-las. Preferi assim por compaixão. Espero que a tenha também.
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#3
wind
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Há quem diga que o tempo apaga. Que a idade rouba da memória aquilo que o coração um dia julgou inesquecível. Não é o meu caso. Aos oitenta e tantos anos, com a lucidez intacta, a saúde generosa e uma casa onde o silêncio não dói, mas sussurra, posso afirmar: o que foi vivido com verdade não se perde. Apenas muda de lugar. E às vezes, quando menos se espera, volta - com um perfume antigo, uma música no rádio, uma carta nunca enviada. Sou D.R. Sousa. Não escrevo por saudade apenas. Escrevo porque a memória me é fiel. Porque há nomes que ainda vivem comigo - nas entrelinhas, nos detalhes que ninguém mais vê. Amores que não se apagaram, mesmo que os rostos tenham se diluído nas brumas dos anos. Alguns passaram como cometas - intensos, breves e impossíveis de esquecer. Outros ficaram por longas estações, me ensinaram a dançar com o caos e a chorar em silêncio. Houve os que se foram sem saber que os amei. E os que ficaram dentro de mim mesmo depois de partirem. Lembro de muitos com uma clareza quase dolorosa - os olhos, os risos, até os silêncios. Lembro também das mágoas, dos desencontros, das promessas não cumpridas. Mas me recordo, acima de tudo, da beleza de ter sentido tudo isso. Escrevo agora não por arrependimento, mas por gratidão. Por ter amado. Por ter vivido. E por ainda lembrar - com ternura - de cada um deles...

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