As Sobras

As Sobras

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WpMetadataReadComplete Mon, Dec 19, 2022
As Sobras retrata a solidão do homem contemporâneo através da metáfora de um cão de rua, sempre caminhando e repetindo sempre a mesma rotina e aproveitando-se de migalhas e restos capazes de suprir minimamente algumas de suas necessidades básicas e criando uma zona de conforto viciante, rompida quando o animal depara-se com uma residência onde as migalhas apresentam-se de modo mais saboroso e, principalmente, nutritivo do que aquilo com a qual o cão estava habituado, trazendo assim, uma dependência ainda maior do animal em relação ao oferecido. A luta para deixar a zona de conforto e a tentativa de regressar para o aparentemente cômodo espaço são os temas centrais dessa curta história cuja temática pode, sem dúvidas, ser ampliadas para discussões ainda mais profundas envolvendo as problemáticas do homem moderno.
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O Vizinho

A casa ao lado ficou vazia por anos, até que um novo morador chegou. Ele sorri no momento certo, tem um tom de voz sempre calmo e nunca parece nervoso. Talvez calmo demais. Educado demais. No começo, a família Salgado o recebe com a cortesia habitual. Mas, aos poucos, algo se insinua no ar, algo que não pode ser explicado, apenas sentido. O vizinho parece saber exatamente o que cada um precisa ouvir. Às vezes, sua presença é reconfortante; outras, faz o estômago revirar sem motivo aparente. Ele nunca faz nada alarmante. Nunca diz nada ameaçador. Mas, quando ele olha, ninguém consegue desviar o olhar. Sofia, a filha adolescente, sente como se ele enxergasse através dela. Clara, a mãe, percebe que ele sempre aparece nos momentos certos-ou errados. Miguel, o pai, luta contra a sensação de que algo está fora do lugar, mas não consegue apontar o quê. Já o pequeno Lucas... bem, ele diz que o vizinho nunca pisca. Os dias passam. Pequenos detalhes se acumulam. A tensão cresce. Nada acontece-e, ainda assim, tudo parece prestes a acontecer. Então, uma noite, algo acontece. Mas quando tentam falar sobre isso... ninguém consegue concordar com o que viram. E, pouco a pouco, a pergunta se instala na casa, nos sonhos, nos ossos: Quem, ou o quê, realmente vive na casa ao lado?

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