GLAVENIR Chove em Glavenir há mais tempo do que qualquer um consegue lembrar. As ruas estão sempre vazias. As janelas, sempre fechadas. Existem regras na cidade, mas ninguém as fala em voz alta; e quem descobre demais deixa de existir, como se a própria cidade se lembrasse dos nomes no lugar das pessoas que os esqueceram. Lumi nasceu ali. Cresceu sentindo um olhar que não pertencia a ninguém e a todos ao mesmo tempo, vindo das pedras, das ruelas, das frestas onde a chuva nunca alcança. Sempre soube que havia algo de errado em Glavenir. Nunca imaginou que parte daquele erro pudesse ser ela. Do outro lado do mundo, sob um sol que Glavenir nunca viu, um jovem acorda sem memória entre pássaros de penas douradas. Tom, irmão de Lumi, não sabe o que ele é; sabe apenas que algo dentro dele acorda junto, e que, toda vez que esse algo desperta, o mundo à sua volta aprende a temer. E ele não busca muitas respostas. Em Glavenir ele entendeu que se busca apenas sobrevivência. Entre os dois reinos existe um acordo antigo, selado com pão e com sangue; um silêncio de oito anos que começa, agora, a rachar. O centro de Glavenir chama. Os ventos de Lareth respondem. E em algum lugar entre os dois, algo que deveria ter permanecido enterrado.
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