Maria Amélia sempre foi uma jovem apaixonada pela leitura, especialmente pelos romances. Nos livros, encontrava cavalheiros devotos, homens dispostos a cometer loucuras por amor, que colocavam a felicidade de suas esposas acima de tudo, até mesmo de si próprios. Um ideal que ela guardava no mais profundo de seu íntimo, embora soubesse que o mundo real era diferente. Desde cedo, compreendera que o casamento não passava de um arranjo político, e por isso vivia sem ilusões. Aprendia tudo o que uma dama da sociedade deveria saber, ciente de que seu destino não seguiria os enredos apaixonados que tanto amava.
Sabia também que, entre suas irmãs, era a menos favorecida em atributos que a tornassem notável. Seu rosto não era singularmente belo, suas curvas eram discretas, seus cabelos castanhos escuros, comuns. Sua única grande paixão eram os livros, e isso nunca fora um atrativo para pretendentes. Ainda assim, estava consciente de que, mais cedo ou mais tarde, seria oferecida a um casamento que garantisse benefícios mútuos à sua família.
O que não esperava era que esse momento chegasse tão cedo.
Mário sempre soubera seu lugar no mundo. Filho bastardo da coroa, jamais se importara com sua reputação - pelo menos, não até vê-la. A primeira vez que seus olhos pousaram naquela jovem, foi em seu refúgio: a cadeira mais escondida da biblioteca de um bairro esquecido. Mas ela estava ali. Com as bochechas rosadas, os cabelos castanhos soltos como a casca áspera de um tronco de árvore, o vestido azul claro marcado pelo pó dos livros e uma crise de espirros absolutamente desastrosa.
E, ainda assim, ela era perfeita.
Meses se passaram até que ele conquistasse sua confiança. Meses até que descobrisse o defeito que tornava aquela perfeição impossível: ela pertencia a uma sociedade que jamais o aceitaria.
Estaria ele fadado a mais um infortúnio?
Um encontro longe da cidade deveria ser apenas uma despedida, mas se transforma em um espaço onde desejos reprimidos, ressentimentos antigos e silêncios perigosos se acumulam.
Emil se torna o eixo da convivência - belo, provocante e profundamente errado. Sua presença altera o ambiente, pesa o ar, traz consigo um cheiro estranho; algo nele antecede o caos, como o prenúncio de uma tempestade que nunca chega.
À medida que a intimidade cresce, a verdade deixa de ser apenas emocional e passa a marcar o corpo. O romance cede lugar à culpa, e o que foi ignorado começa a exigir reconhecimento.
Petricor - O Cheiro da Tempestade é uma narrativa fantástica sobre desejo, repressão e o erro de acreditar que certas forças só existem quando são nomeadas.
Algumas esperam além da realidade.
E quando finalmente chegam, não vêm para salvar - pelo menos não da forma que se espera.