Vida, Tenho um medo ancestral de que percebas o tamanho do abismo que cavei para te guardar. Às vezes, o silêncio da minha casa grita o teu nome com uma força tal, que temo que os vidros das janelas se partam e o mundo todo descubra que te transformei em verbo. Dizem que amar assim, em versos contados e almas traduzidas, é um tipo de loucura. Dirão, talvez, que sou possessiva... eles, que mal conseguem possuir o próprio destino! Mal sabem que não te quero presa em redomas de vidro. Quero-te livre, bailando entre risos e festas que meus sentidos não suportam, enquanto eu, aqui, te dou a única eternidade que me é permitida: a da palavra. Se soubesses que cada gesto teu...o modo como inclinas a cabeça ou a forma como os teus textos respira entre as minhas mãos gera em mim uma tempestade de um milhão de textos, fugirias de mim como quem foge de um incêndio. O fogo assusta quem só conhece a brisa. Hoje, deixo de antecipar o cenário da tua partida. Se o amanhã é um deserto, que hoje eu beba toda a água da tua existência em segredo. Porque enquanto durar, Vida, as minhas palavras serão tuas. E só o papel saberá o quanto de mim se perdeu para que tu te encontrasses nestas linhas.
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