Gen sentava-se ali, todos os dias, empoleirada na ponte envelhecida envelhecida, como se esperasse que a luz - ou a vida - finalmente a encontrasse. Mas o sol sempre parecia escolher outras janelas.
Com apenas vinte e um anos, sua pele era pálida como leite derramado, seus olhos roxos - quase despigmentados - pareciam manchas de tinta sobre pergaminho antigo. O cabelo branco, cacheado e longo era um espelho de tudo que a fazia diferente. E, como toda diferença naquele tempo, era um fardo.
Órfã desde a infância, Gen crescera em silêncio. Nunca pertencia. Nem ao povo, nem aos nobres. Nem à rua onde morava, nem ao tempo em que existia. Seu mundo era feito de páginas. Era nos livros que ela respirava.
E não apenas lia...
Ela vivia os livros.
Era seu segredo mais profundo: quando lia uma história, era como se seus olhos a transportassem. Ela entrava no enredo. Vivia as dores, os beijos, os castelos e os abismos. Sentia o medo dos heróis, decorava as línguas, lutava com espadas, dançava em bailes reais. Mas nada - nada - podia ser mudado. Apenas sentido.
E então, a história acabava. E ela voltava.
Voltava para a poeira. Para a fome. Para os olhares tortos da vila. Para o vazio.
Às vezes, pensava que o único erro dos livros era terminarem.
Às vezes... pensava se a vida também deveria terminar.
Naquela noite em particular, a chuva batia forte no telhado. O vento gemia como se o mundo estivesse se desfazendo em lamento. Geneviève sentia o peito afundar, e com ele, um pensamento antigo, indesejado, perigoso.
Talvez fosse mais fácil sumir.
Talvez ninguém notasse.
Foi então que ela o encontrou.
Seu destino.
Abriu a primeira página.
Vazia.
Na segunda, apenas uma frase, escrita à mão, tremida, quase ilegível:
"Você está pronta para viver algo que nunca foi escrito?"
Ela prendeu a respiração. O mundo parou.
Havia apenas estrelas. E um céu que não era o dela.
E você está preparado?
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