Onde O Medo Termina
A caminhonete poeirenta parou no mesmo lugar de sempre, mas o silêncio que a acompanhava era diferente. Durante quatro anos, Vicente fez daquela espera um hábito, um exercício diário de lealdade a um fantasma que, na verdade, nunca quis ser lembrado. Ela não prometeu voltar; ela simplesmente escolheu partir, deixando para trás um vazio que ele se convenceu a preencher com a memória do que um dia pensou ter sido amor.
Vicente olhava para o horizonte de Rio Verde e, por um instante, a vida parecia suspensa. Ele se tornou um homem feito de deveres e silêncios, preso em uma fotografia amarelada de alguém que escolheu o esquecimento.
Ele não sabia, naqueles anos de solidão e poeira, que o seu maior desafio não seria a ausência, mas a presença constante e vibrante daquela que sempre esteve ao seu lado, escondida sob o manto da "irmã caçula". Enquanto ele buscava por justificativas para um abandono que nunca teria resposta, a verdade caminhava ao seu redor, provocando-o com olhares verdes e um desprezo que, no fundo, era apenas o reflexo de sua própria covardia.
Quatro anos é muito tempo para se viver uma mentira. Mas, para Vicente e Berenice, foi exatamente o tempo necessário para que o passado fosse deixado de lado e o medo finalmente encontrasse o seu fim.