Prólogo
Alguns acreditam que toda comunidade, por mais cinzenta e quebrada que seja, guarda alguém que carrega luz. Não é um brilho chamativo, mas uma claridade que incomoda as sombras, como vela acesa no fundo de um quarto úmido.
Na Vila das Palmeiras, essa luz tinha nome: Ana.
Aos olhos de muitos, ela era apenas a filha de Nilza, a mulher amarga e doente que raramente saía de casa, e irmã de Roberto, um rapaz arredio, sempre trancado no próprio mundo. Mas aos olhos da vila, Ana era diferente. Caminhava pelas vielas estreitas como se o perigo não a enxergasse. O sorriso dela era recebido até pelos mais endurecidos como bênção silenciosa.
E foi justamente esse sorriso que atravessou a muralha de um homem que, desde os treze anos, havia sido forjado entre sangue, dor e poder.
Davi, conhecido como Lobo, reinava sobre aquelas ruas como um predador que todos temiam. Aos vinte e quatro anos, já tinha visto e feito o suficiente para não se surpreender com nada. Conhecia a podridão dos homens, a fragilidade das mulheres que o procuravam por interesse e a fraqueza dos que tentavam desafiá-lo.
Nada o abalava. Nada o comovia.
Até ela.
Naquela tarde, ele não a viu pela primeira vez. Já a conhecia de vista - todos conheciam. Mas foi naquele instante que a enxergou de verdade.
E essa diferença bastava para colocar sua alma em guerra.
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