Os traumas me devoraram por dentro. Abusos de uma infância que não quero recordar, toques indesejados que roubaram minha inocência, relacionamentos que me esmagaram mais que ondas furiosas e um casamento no qual apostei tudo e perdi, quebrando o pouco que ainda restava de mim. Cada memória é um peso insuportável que arrasto sozinha, uma tristeza infinita que sufoca meus pulmões e me faz duvidar se algum dia fui inteira.
O mar me chamou como um amante cruel. Entrei na água gelada ao entardecer, os fones chiando, já distantes da margem, enquanto a música morria como meus pensamentos perturbados, um hino fúnebre que era só meu. Nado cada vez mais fundo até o vazio me engolir, memórias felizes piscando como ilusões falsas - risos de criança, pensamentos alegres pela primeira vez invadindo minha mente. Será a morte assim, serena? Deixo o sal arder na boca, o peito queimar sem ar, uma calma sombria me envolvendo na escuridão que desce e meu corpo já pesado que não consigo mais mover, prometendo o fim que suplico. Enxergo já embaçado, ela vem, será a morte vindo em minha direção me buscar? Ela parece dançar nas aguas, então meus olhos vão aos poucos fechando, perdendo a força...
Então uma mão forte me agarra do fundo, puxando-me para uma luz desconhecida nas profundezas.
Então acordo e já não sou mais eu
*Contém conteúdo sensível: Contém cenas com consentimento duvidoso, violência, abusos traumáticos, perseguição, cenas sexuais explícitas, humilhação e jogos de poder.