Ícaro passou a vida aprendendo a caber.
Desde cedo, entendeu que existir demais cansava, que sentir muito era inconveniente, que desejar precisava de controle. Tornou-se adulto exemplar: silencioso, confiável, sempre disponível, alguém que todos podiam usar como apoio, mas poucos realmente viam.
Clara se apaixonou por essa calma. Pela gentileza sem ruído, pela ausência de jogos, pela estabilidade. Mas, com o tempo, percebeu que amava alguém que se escondia até de si mesmo. Um homem presente, mas ausente. Correto, mas intocado.
Durante dois anos de relacionamento e mais de um dividindo a mesma casa, o corpo entre eles permaneceu um território interditado. Não por falta de amor, mas por excesso de contenção.
Enquanto Clara tenta compreender, sem invadir, ela observa, procura pistas, revisita o passado de Ícaro com cuidado e começa a questionar até onde é possível amar alguém que não se permite existir.
Porque amadurecer não é desaparecer. E amar, às vezes, é sustentar o nascimento do outro.
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