Anna Alice sempre acreditou que, quando os outros não mudam, somos nós que mudamos. Assim, o outro jamais precisaria fazê-lo. Desinibida, bem articulada e naturalmente simpática, ela atravessava o auge da juventude quando se viu diante de um dos maiores inimigos de quem ainda está aprendendo a viver: o luto.
Depois disso, mergulhou nas profundezas de sentimentos que nunca fora capaz de expressar. Incapaz de lidar com a dor que insistia em vir à tona, passou a empurrar tudo para baixo - à força. Em busca de algum alívio, desprendeu-se de tudo aquilo que ameaçasse trazer à superfície o que havia sido soterrado dentro de si.
Talvez por isso, ao longo dos últimos anos, a frase que mais ouviu tenha sido: "você não é mais a mesma". Sempre dita com um tom velado de desaprovação por quem a conheceu antes. Anna Alice tentou se manter pacífica diante dessas constatações, mesmo quando atingiam camadas profundas demais. Convencia-se de que as mudanças eram apenas frutos naturais da passagem do tempo. Algo inevitável. Algo humano.
Havia até certo alívio em perceber que tudo havia mudado. Afinal, ninguém permanece sendo quem já foi um dia. Cresceu ouvindo do pai que não existe passo à frente sem deixar algo para trás, e por muito tempo carregou essa ideia como verdade absoluta. Como todo jovem, acreditou que com ela seria diferente - até perceber que não era a exceção, e que o mundo nunca girou ao seu redor.
Durante anos, ignorou os alertas de que tudo aquilo que fica mal resolvido sempre encontra um jeito de voltar.
Anos após o último contato, com vidas completamente diferentes, Anna Alice Vega e Gabriel Martinelli passam a fazer parte da mesma órbita novamente. Ambos atravessam suas piores fases. O reencontro, à primeira vista, não deveria significar nada grandioso. Afinal, o que poderia haver de profundo quando duas pessoas rasas se encontram?
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