A boneca de pano não devia estar ali.
Ela apareceu na mesa de madeira numa noite sem lua, cercada por cartas antigas, agulhas enferrujadas e a tábua Ouija manchada pelo tempo. Seu olho costurado parecia fechado… mas o outro, um botão torto, refletia a luz da vela como se estivesse acordado.
Ninguém se lembrava de tê-la criado.
Diziam que cada ponto em sua pele havia sido feito com um pedido. Cada nó, um segredo. Cada agulha espetada, uma dor que alguém não quis carregar sozinho.
Quando a mão tocou o ponteiro da Ouija, o ar ficou pesado.
— Tem alguém aqui?
A vela piscou.
A aranha parou de se mover.
E então… toc toc.
Não foi na porta.
Foi dentro da boneca.
As cartas de tarô se espalharam sozinhas, revelando sempre a mesma figura: A Morte, O Diabo, A Lua. Repetidas. Insistentes.
A boneca se mexeu um centímetro.
Seu sorriso costurado esticou.
— Sim — respondeu uma voz que não vinha de fora, nem de dentro… mas de algo esquecido.
A verdade era simples e cruel:
a boneca não chamava espíritos.
Ela guardava.
Guardava promessas quebradas, amores amaldiçoados, ódio não dito. E agora, alguém havia perguntado demais.
A tábua deslizou sozinha, letra por letra:
“VOCÊ ME CRIOU.”
A vela se apagou.
E, no escuro, a boneca abriu o olho que nunca foi costurado.
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