Quando criança, Rebecca Armstrong aprendeu cedo que o mundo podia ser cruel com quem ousava enxergar demais. A expulsão da Inglaterra não veio com despedidas nem explicações veio como um corte seco. Ela e a família foram escorraçadas, carregando na mala apenas o que coube e, no peito, um ressentimento que cresceu em silêncio. Londres ficou para trás como uma ferida mal cicatrizada, uma cidade que prometera abrigo e entregara exílio.
Agora, aos vinte e oito anos, Rebecca retorna a Londres no auge da própria frieza calculada, contratada como repórter investigativa da BBC. O sobrenome Armstrong já não treme; é lâmina afiada, paciência de predadora. Cercada de mistérios, pistas que chegam sem assinatura, ela traça um caminho meticuloso até a princesa Samanun de Gales, recém completados dezenove anos, segunda na linha de sucessão ao trono britânico, herdeira de uma história que, para Rebecca, cheira a podridão antiga.
Há traumas que não se curam; se administram. Sozinha por escolha, Rebecca aprendeu a usar pessoas como trampolins, degraus provisórios rumo ao que quer. O ódio acumulado não é um incêndio é uma brasa constante, paciente, que aquece suas decisões mais frias. Ela se aproxima da princesa com o sorriso certo, o tom certo, a distância exata. Cada gesto é estratégia. Cada encontro, uma peça no tabuleiro.
Só que planos não preveem rachaduras.
Porque, contra a própria vontade, algo começa a brotar nos intervalos do jogo: um desconcerto nos dedos quando eles se tocam por acaso, um atraso no olhar ao cruzar com o sorriso juvenil de Samanun, um silêncio que pesa mais do que qualquer pergunta. Rebecca jurou destruir a figura que representa o que lhe foi tirado. Jurou não se desviar.
E ainda assim, a cada toque, a cada olhar, a cada riso que escapa desprevenido da princesa, a muralha que ela construiu com ódio ganha fissuras perigosas.
All Rights Reserved