O sagrado

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WpMetadataNoticeLast published Fri, Feb 20, 2026
As paredes de pedra da paróquia, sobre as quais aquela pequena cidade foi erguida, eram frias demais para permitir que alguém ouvisse o que realmente ecoava além delas. Construídas para sustentar a fé, também sustentavam o silêncio. E sob aquele silêncio, algo antigo respirava. Os sinos marcavam as horas, mas não marcavam a verdade. Naquela mata cerrada, gerações cresceram entre raízes profundas e folhas densas, como se a própria floresta tivesse moldado seus filhos no ventre escuro da terra, longe dos olhos de pedra da paróquia e dos julgamentos que ecoavam sob os sinos. Ali, o vento não carregava ameaças de condenação - carregava segredos. Segredos guardados nas cascas das árvores, no cheiro úmido do solo e no sussurro das ervas esmagadas entre dedos experientes. A floresta não exigia confissão. Não prometia salvação. Apenas ensinava. Homens de poder sempre temeram aquilo que não podiam controlar. E quando perceberam que havia algo maior do que suas espadas, seus selos e seus decretos, apressaram-se em dar nome ao medo. Chamaram-no de pecado. Chamaram-no de heresia. Chamaram-no de mal. E, para justificar a própria insegurança, entregaram suas decisões a uma força invisível que proclamaram divina. Diziam servir a Deus. Mas, na verdade, serviam ao próprio temor de perder autoridade. Pois o que realmente os inquietava não eram demônios nas sombras, mas mulheres à luz do dia - mulheres que conheciam o tempo da colheita, o ritmo do sangue, o ciclo das luas e o silêncio necessário para sobreviver. Mulheres que sabiam quando curar e quando calar. Mulheres que não precisavam da permissão de homens para existir. Homens de ego inflado e coragem frágil não suportam mulheres que sabem demais - mulheres que entendem a terra melhor do que eles entendem suas próprias leis. Foi assim que as bruxas nasceram. Não do mal. Mas do pavor masculino de perder um poder que jamais lhes pertenceu.
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