As paredes de pedra da paróquia, sobre as quais aquela pequena cidade foi erguida, eram frias demais para permitir que alguém ouvisse o que realmente ecoava além delas. Construídas para sustentar a fé, também sustentavam o silêncio. E sob aquele silêncio, algo antigo respirava.
Os sinos marcavam as horas, mas não marcavam a verdade.
Naquela mata cerrada, gerações cresceram entre raízes profundas e folhas densas, como se a própria floresta tivesse moldado seus filhos no ventre escuro da terra, longe dos olhos de pedra da paróquia e dos julgamentos que ecoavam sob os sinos. Ali, o vento não carregava ameaças de condenação - carregava segredos. Segredos guardados nas cascas das árvores, no cheiro úmido do solo e no sussurro das ervas esmagadas entre dedos experientes.
A floresta não exigia confissão. Não prometia salvação. Apenas ensinava.
Homens de poder sempre temeram aquilo que não podiam controlar. E quando perceberam que havia algo maior do que suas espadas, seus selos e seus decretos, apressaram-se em dar nome ao medo. Chamaram-no de pecado. Chamaram-no de heresia. Chamaram-no de mal. E, para justificar a própria insegurança, entregaram suas decisões a uma força invisível que proclamaram divina.
Diziam servir a Deus.
Mas, na verdade, serviam ao próprio temor de perder autoridade.
Pois o que realmente os inquietava não eram demônios nas sombras, mas mulheres à luz do dia - mulheres que conheciam o tempo da colheita, o ritmo do sangue, o ciclo das luas e o silêncio necessário para sobreviver. Mulheres que sabiam quando curar e quando calar. Mulheres que não precisavam da permissão de homens para existir.
Homens de ego inflado e coragem frágil não suportam mulheres que sabem demais - mulheres que entendem a terra melhor do que eles entendem suas próprias leis.
Foi assim que as bruxas nasceram.
Não do mal.
Mas do pavor masculino de perder um poder que jamais lhes pertenceu.
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