Hikari Ichinose. 19 anos. Um colegial que só queria terminar o último ano do colégio com a calmaria monótona de sempre. Algo metódico ─ como seguir uma das receitas de confeitaria da minha avó: um passo de cada vez, medidas exatas. Nem um grão de açúcar a mais, nem uma pitada de farinha a menos. Mas então surge o problema que receita nenhuma ensina a resolver : quanto de um delinquente completamente sem noção se coloca nisso? E justo quando o vestibular exige tudo de mim. Justo quando meus pais não deixam margem para erro. É como se me obrigassem a preparar uma sobremesa com especiarias feitas sob medida para desajustar cada batida em meu peito. Ingredientes insanos. Proporções perigosas demais. E, como toque final, aquele maldito cheiro ─ rebelde, provocador ─ chacoalhando todas as células de prudência do meu organismo. Quando percebo, a massa já está pronta. Ou melhor, pulou de uma janela direto na minha vida. Literalmente. Bastam alguns minutos no forno para eu entender que não existe receita capaz de consertar isso. Minha sensatez se despedaçou em uma infinidade de pedaços confusos, espalhados pelo chão, levados pelo vento ─ alguns até orbitando sem rumo pelo espaço. Sim. Eu estou ficando louco. Tão louco quanto aquele idiota. E o pior de tudo ─ ou talvez o mais assustador ─ é que eu nunca me senti tão absurdamente vivo.
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