Dizem que o destino é traçado pelas estrelas, mas, para Emily, ele foi escrito no fundo de uma taça de cristal há muitos anos. É um pensamento cruel e obsessivo: se o pai, em um brinde descuidado de juventude, tivesse recusado aquela simples taça de vinho, o fio do tempo teria seguido outro curso, talvez a embriaguez do acaso não tivesse conduzido seus passos até aquela tragédia; talvez o fogo nunca tivesse aprendido o caminho de sua casa, se aquele maldito gole não tivesse sido tomado, Emily não estaria agora com os pés feridos pela areia grossa do cais, sentindo o sal do mar arder em cortes que a alma não consegue esconder, ela estaria em seu quarto, protegida pelo cheiro de baunilha e papel antigo, mergulhada em um romance de finais felizes, ignorando que o mundo lá fora é um monstro que devora crianças, mas o vinho foi bebido, o cristal se quebrou, e a menina dos livros morreu entre as chamas para que a sobrevivente pudesse nascer no trapiche.
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