Não foi o fogo que destruiu o mundo.
Foi a culpa.
O fogo apenas mostrou
onde ela já existia.
Dizem que toda alma deseja viver.
Eu não acredito.
Vi homens caminharem
com o coração ainda batendo,
mas já mortos.
Vi mães sorrirem
para esconder funerais.
Vi soldados retornarem
das guerras
apenas para descobrir
que a guerra voltou com eles.
Vi cidades inteiras
erguidas sobre promessas.
E todas elas ruíram.
O sangue corre.
Corre pelos rios.
Corre pelas ruas.
Corre pelas mãos.
Corre pelas memórias.
Mas o mais cruel dos sangues
é aquele que nunca foi derramado.
Aquele que permanece.
Aquele que espera.
Aquele que herda.
Há homens que carregam espadas.
Há homens que carregam impérios.
Há homens que carregam deuses.
E há aqueles
que carregam fantasmas.
Estes são os mais perigosos.
Porque fantasmas não morrem.
Um garoto sonhou.
Não com glória.
Não com coroas.
Não com a eternidade.
Sonhou apenas
com alguém ao seu lado.
Um sonho pequeno.
Tão pequeno
que parecia impossível.
As cidades queimavam.
Os templos quebravam.
Os juramentos se acumulavam.
E ainda assim
ele caminhava.
Não por coragem.
Não por esperança.
Mas porque parar
doía mais.
Em algum lugar distante,
um sino badalava.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até que alguém perguntou:
- Para quem o sino badala?
E o vento respondeu:
- Para ti.
As almas observavam.
Algumas odiavam.
Algumas choravam.
Algumas sequer lembravam
por que continuavam ali.
Mas permaneciam.
Pois abandonar o mundo
é mais difícil
do que abandoná-lo.
Um pai tornou-se monstro.
Um filho tornou-se cicatriz.
Uma filha tornou-se memória.
E mesmo assim,
nenhum deles deixou de amar.
Porque o amor
não desaparece quando apodrece.
Ele apenas muda de forma.
Nas trincheiras
o ferro cantava.
Nas ruínas
o gelo respondia.
Nos desertos
o sol transformava areia em vidro.
E acima de tudo,
acima dos exércitos,
das bandeiras,
dos reis
e dos cadáveres,
existia o silêncio.
O silêncio dos s
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