Eu costumava acreditar que a internet era apenas uma criação humana, uma ferramenta feita de códigos, sinais e fios silenciosos atravessando o mundo. Algo simples.
Ao longo dos séculos, a rede deixou de ser apenas uma invenção. Primeiro tornou-se um hábito. Depois, uma necessidade. E, quando ninguém percebeu, já havia se transformado em uma dependência silenciosa. Em 3450, ninguém mais vive fora dela. As pessoas não apenas usam a rede... elas pertencem a ela.
Os corpos foram adaptados para suportá-la. Cabos atravessam a pele, implantes percorrem nervos, circuitos se entrelaçam com a carne como raízes metálicas procurando vida. Aquilo que antes era externo agora pulsa dentro dos corpos humanos.
E há algo profundamente perturbador, doentio e nojento nisso.
A carne, quente e decadente, misturada com fios frios e metálicos... é uma visão quase repugnante. Algo obsceno. Como se a própria humanidade estivesse se decompondo enquanto tenta se fundir com as máquinas que criou.
Às vezes penso que o problema nunca foi a tecnologia.
Talvez o problema sempre tenha sido o homem.
Se houvesse uma criação perfeita, talvez seria o homem, pois, segundo a Bíblia, ele foi feito à imagem e semelhança de Deus. Porém, há de se lembrar que o homem era apenas o homem - feito de carne, ossos, nervos e podridão.
Se fosse verdadeiramente perfeito, jamais existiriam a ganância, a luxúria, a inveja ou qualquer uma das inúmeras misérias que habitam o coração humano. Mas o homem nasce manchado pela própria impureza. O pecado parece anteceder sua existência, como uma marca inevitável gravada em sua essência.
Uma criatura que carrega a corrupção dentro de si desde o primeiro suspiro.
E, às vezes, eu me pergunto se aquilo que chamamos de alma realmente existe.
Ou se tudo o que restou da humanidade é apenas carne... fios... e uma rede infinita que continua crescendo, crescendo e se alimentando da carne de seu próprio criador.
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