Se você perguntar pros meus amigos quando eu comecei a me ferrar, eles vão dar várias versões. Que foi quando eu parei de ir no futebol de domingo. Ou quando comecei a chegar atrasado no quiosque com desculpa esfarrapada, sendo que eu sempre vou a pé. Ou, segundo o Caio - fofoqueiro profissional -, quando eu passei a tomar dois banhos por dia e usar perfume caro pra vender mate na praia.
Só que a real não começou aí. Começou no segundo em que eu bati o olho no Benjamin.
E que sacanagem, porque o cara não tem cara de problema. Tem cara de propaganda de perfume: bonito sem esforço, cabelo caindo do jeito certo, pele que parece feita pelo sol sob medida. E os olhos... rápidos, atentos, como se ele lesse tudo em você em dois segundos. A boca? Nem vou entrar nesse assunto porque me irrita.
Toda vez que ele aparecia no quiosque, eu virava um desastre: errava troco, esquecia pedido, trocava as coisas. Mas, ao mesmo tempo, sabia tudo sobre ele. O horário que passava, o sorvete favorito, até o jeito que ele fingia coragem antes de entrar no mar gelado.
E ninguém decora esse tipo de coisa de alguém que odeia.
Aí eu entendi. Eu não tava com raiva. Eu tava... apaixonado. Palavra ridícula, inclusive. Parece nome de música ruim. Mas era isso.
Tentei fugir. Juro. Mudar turno, evitar a praia, fingir que ele não existia. Falei pra mim mesmo que era só tesão, que ia passar.
Não passou.
Porque evitar ele na rua não adiantava quando ele já tava em tudo. E eu lá, três da manhã, encarando o teto, pensando nele igual um completo idiota.
No fim das contas, era isso:
eu tava ferrado.
E o pior?
Eu gostava.
Perigosamente viciado.
Benjamin virou meu hábito ruim. Meu cigarro imaginário. Meu erro favorito.
Eu sabia que ia dar merda. Sabia. Mas todo dia eu acordava, passava protetor, ajeitava o cabelo no reflexo do freezer do quiosque... e voltava pra orla.
Voltava pra ele.
Por que o "perigo" ainda esperava na orla.
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