Lyra Araruna nasceu sob a lua cheia da floresta amazônica, nos braços de uma mãe que já carregava o fogo dos espíritos nos olhos. Até os dez anos, ela conheceu apenas o mundo do povo Tikuna: o cheiro úmido da terra vermelha, o canto dos pássaros que anunciavam o amanhecer e o rugido distante de onças que não eram apenas animais eram família. Sua mãe, Yara, era uma das últimas grandes feiticeiras-guerreiras da tribo. As mãos dela domavam os quatro elementos como se fossem velhos amigos: o fogo dançava entre os dedos quando cozinhava, a água se curvava para ela, a terra se abria em caminhos seguros e o vento carregava mensagens dos ancestrais. Seu pai, Kuaru, era um transmorfo de onça. Quando a raiva ou o perigo se aproximava, o corpo dele se desfazia em sombras e pelagem negra, tornando-se a fera protetora que guardava os limites da aldeia. Juntos, eles formavam o laço mais sagrado que a tribo conhecia: o imprinting entre feiticeira e transmorfo. Uma alma chamando a outra, um laço que não se quebrava nem pela morte. A aldeia prosperava assim.
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