Sob o teto curvo de aço e silêncio frio,
a cidade passa apressada, mas esquece quem caiu.
O ônibus não chega pra quem já não espera,
o tempo escorre lento, rasgando a primavera.
No chão de pedra dura, sem nome, sem voz,
um corpo se encolhe, lutando contra o “nós”.
Coberto por um pano que não esquenta a dor,
é noite mesmo em pleno dia, é ausência de calor.
Os carros deslizam como se nada existisse,
como se aquela vida ali não resistisse.
Sapatos largados contam histórias caladas,
de passos cansados, de estradas erradas.
E a rua segue limpa, organizada, alinhada,
mas a alma do mundo ali foi abandonada.
Entre prédios altos e palmeiras de vitrine,
há um grito mudo que ninguém define.
Quem passa evita olhar, desvia o pensamento,
porque encarar a verdade pesa mais que o vento.
É mais fácil fingir que é só mais um cenário,
do que admitir o fracasso diário.
Ali não dorme só um corpo, dorme um passado inteiro,
um nome esquecido, um sonho verdadeiro.
Talvez já teve casa, sorriso, direção,
mas hoje é só mais um na fila da exclusão.
E o abrigo de metal vira teto de ilusão,
protegendo da chuva, mas não da solidão.
O mundo gira rápido, mas deixa gente pra trás,
e quem fica no chão já não pede por paz.
Porque paz é luxo pra quem luta por ar,
pra quem tem na calçada o único lugar.
E enquanto a cidade se gaba de crescer,
há vidas invisíveis tentando sobreviver.
No concreto frio, a verdade se expõe:
nem todo mundo vive — alguns só se recompõem.
E entre passos, buzinas e pressa banal,
existe um ser humano tratado como final.
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