Riccardo Calafiori não sabe querer nada pela metade. Com ele, é tudo, o tempo todo, ou é o absoluto e catastrófico fim do mundo. Ele quer me consumir por inteira, ignorando o tempo e o espaço, rindo contra a pele do meu pescoço, embriagado até a medula pela adrenalina suicida de que a maçaneta pode girar a qualquer maldito segundo.
E eu sei, com cada célula hiper-racional do meu corpo, que eu deveria mandá-lo parar. Eu definitiva, lógica e categoricamente não deveria querer engatinhar para o colo dele e deixar que o peso daquele abraço me anestesie o bastante para eu esquecer que existe um universo inteiro lá fora exigindo que eu me comporte.
Mas é um esforço patético. Quanto mais eu empilho sacos de areia, ergo barricadas de chumbo e tento correr na direção oposta, mais o campo gravitacional absurdo daquele italiano quebra os meus tornozelos e me puxa de volta para o centro do furacão.
Nós não temos o menor direito de ceder a isso. Eticamente, não podemos. Nós somos a definição viva do estrago. Riccardo é o novo zagueiro-prodígio do clube, com uma carreira que vale dezenas de milhões de euros e os holofotes da mídia mundial esmagando suas omoplatas largas.
E eu sou a namorada devota, impecável e perfeitamente polida do camisa 11, Gabriel Martinelli.
O problema agudo é que o meu namorado tragicamente bom, gentil e hospitaleiro acabou de convidar o seu "novo colega de elenco" para morar no quarto de hóspedes. Pelo menos até ele "se adaptar ao fuso horário e à cidade". Ou até ele triturar com os dentes as minhas últimas gotas de sanidade mental debaixo do meu próprio teto, a apenas uma maldita parede fina de distância.
O que acontecer primeiro.
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