Joel caminhava em direção ao edifício onde faria a entrevista de emprego. Aquele seria o primeiro passo para destruir quem destruiu sua vida.
A prisão e os anos de isolamento tinham sido suficientes para prepará-lo para aquele momento.
No começo houve raiva, decepção, desespero. Depois veio o ódio, cru e corrosivo, alimentando cada noite passada entre paredes úmidas e vozes violentas. Até que, lentamente, tudo aquilo morreu dentro dele. O ódio não ajudava, apenas consumia. E quando percebeu isso, restou algo muito mais perigoso: calma.
Foi essa calma que o manteve vivo.
Joel sofreu todo tipo de humilhação na prisão. Ficou doente, perdeu peso, quase morreu depois de uma infecção ignorada por semanas. Gastou quase toda a fortuna tentando provar a própria inocência. Advogados entravam e saíam de sua vida prometendo recursos, acordos e milagres judiciais, até que ele simplesmente dispensou todos.
Com o tempo, ficou sozinho.
Sem visitas. Sem assistência jurídica. Sem nome.
Foi naquele vazio absoluto que começou a se reconstruir.
Aprendeu a observar em silêncio, a controlar impulsos, a esconder pensamentos atrás de um olhar sereno. O homem que um dia comandou a maior gravadora musical do momento, desapareceu pouco a pouco dentro da cela. Em seu lugar surgiu alguém frio, paciente e meticuloso.
Agora caminhava pela calçada movimentada usando outra identidade, outro corte de cabelo, outra postura. Ninguém o reconheceria. Nem mesmo aqueles que um dia juraram lealdade eterna. Ergueu os olhos para o edifício espelhado à sua frente.
Anos antes havia atravessado aquelas portas como dono absoluto de tudo. Seu nome brilhava em contratos, revistas e eventos sociais.
A gravadora continuava imponente, luxuosa, exatamente como ele se lembrava. Mas Joel sabia algo que ninguém ali sabia: aquele império estava podre por dentro.
E ele conhecia cada rachadura.
Respirou fundo antes de entrar no saguão.
Não havia pressa. Nem raiva.
Apenas determinação.
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