Karina de Albuquerque não cruzou o oceano para viver um grande sonho americano (ou, no caso, russo). Ela se mudou para Moscou com um objetivo muito mais simples: desaparecer. E tem funcionado. Entre dar aulas de português à noite e revisar traduções em uma editora durante a tarde, ela ganha o bastante para pagar o aluguel de um apartamento microscópico em um prédio decrepito e ligeiramente duvidoso. Para alguém com fobia social, a famosa frieza russa não é um choque cultural, é um abraço quentinho. Em Moscou, Karina é um fantasma perfeitamente feliz e invisível.
Até que, numa noite qualquer, o cara do apartamento ao lado resolve enxergá-la.
Yan Vronski sabe muito bem o que é precisar de uma rota de fuga. Filho de um pai ausente e de uma mãe que se desgastou em subempregos para criá-lo, ele chegou à capital aos dezoito anos com o rosto de um protagonista de cinema e o sonho de dominar os teatros. A realidade, porém, veio em forma de rejeições brutais. Aos vinte e dois, o desespero financeiro o empurrou para a indústria pornô como uma "solução temporária". Aos vinte e oito, o dinheiro fácil e a falta de alternativas o mantêm preso a uma vida onde ele é exposto para milhares, mas não é realmente visto por ninguém.
O que começa com esbarrões desajeitados no corredor de um prédio mal iluminado logo evolui para algo que nenhum dos dois previu. Dois introvertidos, tímidos e reclusos encontram um no outro um lugar seguro. Entre chás quentes para espantar o inverno, eles se tornam unha e carne. O único problema da convivência pacífica? Karina, que sempre evitou qualquer proximidade humana, de repente se pega calculando a distância exata entre o sofá e os lábios de Yan.
Agora, os dois fantasmas solitários de Moscou terão que descobrir se estão dispostos a arriscar o porto seguro da amizade para testar a teoria (altamente perigosa e cientificamente não comprovada) de que a boca um do outro é o melhor lugar do mundo para se
All Rights Reserved