Era sexta-feira, tinha chegado da escola, eram umas 19:00 e tal da noite, estava faminta, pois nesse dia esqueci-me de levar dinheiro para almoçar na escola.
Cheguei a casa, chamei pelos meus pais, mas nada. Ninguém estava em casa, eu nem quis saber, simplesmente fui para a cozinha fazer o meu jantar.
Enquanto comia, deparei-me com uns barulhos estranhos ainda pensei que tivesse sido a minha gata, por isso nem liguei , mas de repente a porta da cozinha fechou-se e eu comecei a ouvir a minha gata miar tão intensamente e tão alto que o meu coração disparou para ir ver o que se passava, ate a fome me passara, tentei abrir a porta mas parecia que algo a fechara com uma força sobrenatural, não sei bem explicar, só sei o quão assustada estava nessa altura …
eu chorava de desespero, estava assustadiça quando de repente... a Luçy parou de miar, a força que estava na porta parou, eu eu cai no chão, levantei-me peguei na faca mais próxima de mim, e comecei a andar muito lentamente, quando de repente as luzes se apagam, o meu coração volta a desparar... honestamente só queria ver o que se passara com a minha gata, nada mais que isso.
As luzes voltam-se a acender como se nada fosse e eu dou um passo a frente e piso algo, algo estranhamente pegajoso, e molhado e ao mesmo tempo cheirava mal, e olhei para baixo... era a Lucy, a minha linda gata estava ali morta a sangrar por todo o lado, tinha a cabeça cortada havia unhas cortadas a volta dela, como se fosse ritual, a gata no meio e um circulo de unhas a volta dela...
Foi ai que decidi ligar para os meus pais, fui até a sala onde se deparava o telefone de casa, eu marquei o numero, com isto tudo já eram 20:15. Eu apavorada e nervosa, espero que alguém do outro lado me atenda, mas nada, ninguém me atendia, eu aflita tento ligar pela 7ª vez e assim que meto o telefone no ouvido um apito estrondoso se alarga no meu tímpano, quase fiquei surda.
Era um dia frio; o vento parecia querer machucar. Cheguei em casa logo após o sepultamento de minha avó Maria e me senti uma estranha em meu próprio lar. O ambiente ecoava uma paz intrusa e um silêncio constrangedor.
Eu não conseguia sentir nada.
Acontece que aquela insensibilidade me assustou imensamente, pois eu era uma das netas mais apegadas a ela. Com isso em mente, caminhei por aquela casa enorme e sombria, sentindo-me perdida, sem saber em qual cômodo me esconder. Escolhi a sala; o sofá nunca me pareceu tão convidativo. Minha mente precisava desesperadamente de barulho, fosse qual fosse, então liguei a televisão. Passava "A Lista de Schindler", entretanto, minha alma gélida não se comoveu com a história triste do filme. Foi quando adormeci.
Enquanto sonhava, me vi em casa, mas ela estava acolhedora e iluminada pelo sol. A mesa da sala de jantar exalava a fragrância de lavanda do lustra-móveis, que se misturava ao cheiro de bolo de fubá recém-tirado do forno.
Na sala de estar, sentada, quieta e concentrada na notícia que passava na TV, lá estava ela: a vó Maria. Com seu rosto idoso e suave, usando o lenço branco de sempre sobre os cabelos finos e grisalhos, ela bordava um pano de prato enquanto acompanhava o jornal da tarde. Passado algum tempo, ela se levantou, colocou a caixinha de costura e o trabalho inacabado sobre o sofá, olhou para mamãe e disse:
- Tenho que ir!
Acredite ou não, daquela sala de jantar, o sonho nos transportou para o cemitério. Entramos e, pelas vielas estreitas, seguimos em paz e lentamente, até chegarmos ao túmulo que tinha a foto da vovó. Eu, abruptamente e sem pensar, disse:
- Vou com a senhora!
Ela respondeu com amor, mas decidida:
- Agora não. Volte e viva.
Acordei com ânsia de vômito. Eu sabia que, agora, era minha vez de escrever nossa história. Estando pronta ou não.
DA 2021-006074