Nunca pensei que misturar Direito e Nutrição fosse me jogar bem no meio do tipo de problema que a gente só vê em bastidor de vestiário... ou em sonho. Trabalho num dos maiores clubes do país. Meu dia é dividido entre contratos, planilhas de composição corporal e tentativas constantes de convencer jogadores que pão francês não entra na categoria "fonte de proteína". Sempre fui prática. Cabeça no lugar. Coração blindado. Mas nada disso adiantou no momento em que aquele olhar cruzou o meu. Porque quando ele entrou na sala como quem não pede licença pra ocupar espaço, alguma coisa em mim desmoronou. E o pior: já era fã muito antes de virar colega de trabalho. Acompanho de longe há anos. Sei os números, os jogos, os cartões. Sei o jeito que ajeita a meia antes de entrar em campo e o silêncio que carrega quando tá irritado. Conheço o corpo de jogo, a postura, o jeito contido. Era só admiração, até deixar de ser. Agora é presença. É perto. É perigoso. E ninguém me ensinou o que fazer quando o maior dos meus segredos resolve sentar a dois metros da minha mesa, com aquele sotaque arrastado e a cara de quem nem imagina o estrago que causa.
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