Rhiannon construiu a própria carreira em silêncio, com talento, ouvido atento e um nome que poucos se davam ao trabalho de conhecer. Nos estúdios de gravação, ela era conhecida como uma presença que transformava o que tocava, ainda que os homens ao redor a subestimem. Em janeiro de 1991, um convite muda a direção de tudo. Quando Rhiannon cruza as portas do estúdio para trabalhar no novo álbum de Michael Jackson, ela não leva expectativas, leva sua experiência, um caderno cheio de anotações e a certeza de que sabe separar o artista do mito. O que ela não calcula é que Michael também sabe separar as pessoas. Nela, ele vai encontrar alguém que não tenta montar o quebra-cabeça de quem ele é, e simplesmente o vê. O que começa como colaboração técnica vai se tornando outra coisa: algo que mora nas pausas entre as faixas, nos olhares que duram um segundo a mais do que deveriam, na estranha intimidade de dois mundos que não deveriam se tocar e se tocam de qualquer jeito. Em algum momento, inevitavelmente, uma música os alcança. Era aquela que ela carrega como se fosse dela, mesmo sabendo que não é, e que ouve do jeito de quem não quer perder nenhuma camada do que está sentindo. Michael a observa ouvir. E algo se desloca nele de um jeito que não sabe nomear. Enquanto ambos tentam equilibrar ambição, cicatrizes, música e a exaustão particular de carregar uma versão de si mesmos que o mundo insiste em acreditar ser a verdadeira, Michael e Rhiannon descobrem que, entre todas as coisas que poderiam consumi-los, talvez tenham encontrado um no outro o único lugar onde não precisam ser nada além do que são. E Michael começa a entender que algumas músicas só encontram sua musa depois de já terem sido escritas.
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