Entre Duas Fronteiras
Prólogo: Entre Dois Mundos
O avião cortou as nuvens, deixando para trás o calor úmido de Belém e o cheiro intenso da mangueira em flor. Moema olhou pela pequena janela, vendo o mapa do mundo se transformar sob suas asas. Ela levava na mala um pouco de tucupi, uma rede de descanso e um coração que ainda batia no ritmo do carimbó.
Ao seu lado, Li Wei mantinha os olhos fixos em um relatório médico, a postura impecável, o silêncio quase sagrado. Ele era a ordem; ela, o movimento. Ele era a seriedade das montanhas de Pequim; ela, a vastidão da bacia amazônica.
Quando a porta do aeroporto se abriu, o ar de Pequim a recebeu com um frio cortante, muito diferente do abraço quente do Pará. Moema ajustou o casaco, sentindo, pela primeira vez, que o chão sob seus pés não lhe pertencia. Ela segurou a mão de Li Wei, procurando ali o porto seguro que esperava encontrar naquela nova vida.
Li Wei não olhou para ela. Seus olhos estavam focados no horizonte, na mansão ancestral que esperava por eles, com suas regras milenares, suas sombras silenciosas e o peso de um sobrenome que não permitia erros.
Moema não sabia ainda que a viagem não era apenas para o outro lado do globo. Ela estava prestes a atravessar um oceano de expectativas. Naquela mala, entre roupas e lembranças, ela levava a sua essência. E, enquanto as luzes de Pequim brilhavam como estrelas artificiais, ela fez uma promessa silenciosa a si mesma: ela poderia aprender o idioma, seguir o protocolo e se adaptar ao clima, mas jamais deixaria que o frio de um mundo de certezas congelasse o calor que corria em suas veias.
O silêncio do carro que os levava para casa foi o primeiro aviso. A história deles estava apenas começando, mas o conflito entre o "dever ser" e o "ser" já pulsava, invisível, no espaço entre o casal.