Existem feridas que o tempo não cura.
Apenas ensina a esconder.
Serena Carmona aprendeu isso cedo demais.
Aos dezoito anos, ela era conhecida por sua língua afiada, seu olhar desafiador e pela capacidade de afastar qualquer pessoa que tentasse chegar perto demais. Para muitos, era uma garota problemática. Impulsiva. Difícil.
Mas ninguém conhecia a verdade.
Ninguém via a menina que passou anos esperando a mãe voltar.
A menina que dormia abraçada a uma foto antiga, imaginando como seria ouvir um "eu te amo" vindo dela.
Antonella foi embora quando Serena ainda era um bebê.
Sem explicações.
Sem despedidas.
Sem olhar para trás.
E quem ficou para juntar os pedaços foi Juan Carmona.
Pai aos dezoito anos.
Homem antes mesmo de ser garoto.
Juan abriu mão de sonhos, de oportunidades e da própria juventude para criar a filha sozinho. Entre erros e acertos, tornou-se o porto seguro de Serena.
Por isso a dor foi ainda maior quando, anos depois, Antonella reapareceu.
Serena tinha oito anos.
E sua mãe estava grávida.
O bebê não era de Juan.
Mesmo assim, ele assumiu a criança como se fosse sua.
E foi assim que Sofia entrou na vida deles.
Pequena.
Doce.
Inocente.
A única pessoa capaz de derrubar todos os muros que Serena construiu ao redor do coração.
Porque Sofia não a via como uma irmã.
Via como uma mãe.
E Serena faria qualquer coisa por ela.
Inclusive deixar tudo para trás.
Foi por isso que, ao receber uma oportunidade para estudar medicina em Portugal, ela aceitou.
Seu sonho era se tornar pediatra.
Cuidar de crianças.
Dar a elas o carinho e a proteção que muitas vezes sentiu falta.
O plano parecia simples.
Mudar de país.
Entrar na universidade.
Construir o próprio futuro.
O que Serena não imaginava era que seu novo lar seria a casa do melhor amigo de seu pai.
Um homem que ela conhecia desde criança.
Um homem que sempre esteve presente nos aniversários, nas festas e nos momentos importantes de sua vida.
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