Nunca descobrimos quando tudo começou.
Talvez tenha sido na primeira notícia. Talvez no primeiro corpo encontrado. Ou talvez no instante em que o medo passou a fazer parte da rotina de todos nós. O que eu sei é que, de repente, nossa cidade deixou de ser o lugar tranquilo onde eu cresci e se transformou em um lugar onde qualquer pessoa podia desaparecer sem deixar respostas. Ninguém sabia quem estava fazendo aquilo. Ninguém sabia por quê. Só existiam vítimas, manchetes e um assassino que parecia estar sempre um passo à frente da polícia.
As pessoas passaram a trancar as portas mais cedo, evitar sair à noite e olhar por cima do ombro sempre que ouviam passos atrás de si. Até mesmo o silêncio das ruas parecia diferente, pesado... como se escondesse alguma coisa. Minha mãe dizia que era melhor exagerar no cuidado do que se arrepender depois, e, sinceramente, eu nunca tive coragem de discordar. Ela mal deixava que eu ficasse na calçada de casa por muito tempo, insistindo para que eu voltasse antes mesmo do sol começar a se pôr. Eu sempre reclamava um pouquinho, mas entendia. Se fosse comigo, eu também faria de tudo para proteger a pessoa que mais amo.
Só que as coisas ficaram ainda mais estranhas quando a mansão ao lado da nossa casa, vazia havia tantos anos, finalmente foi comprada. Ninguém nunca quis morar ali. Era bonita demais, grande demais... cara demais. Parecia o tipo de lugar que existia apenas para ser admirado de longe. Então, quando um homem desconhecido apareceu e se mudou para lá praticamente da noite para o dia, toda a rua começou a comentar. No começo, achei que fosse apenas mais um vizinho. Mas bastaram alguns encontros, alguns olhares demorados e uma estranha sensação de estar sendo observado para eu perceber que havia algo errado.
E, pela primeira vez desde que tudo aquilo começou, o medo deixou de estar apenas nas notícias.
Ele parecia estar... bem ao lado da minha casa.
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