O Último Nome do Rei da saga Escritos do Paraíso No reino de Nahí e arredores, todos conheciam a velha lenda do Rei Yarek Mal'gar, o lobo perdido e Ynahy, o ômega esquecido. Sabiam recitar o início como sabem as orações aos deuses, mas o fim... nem os anciãos do templo arriscavam, ou ao menos sabiam, contar. Rei Yarek era um soberano que viera da escuridão e aprendera a dominar cada sombra que tentara o derrubar. Arrasou cidades, derrubou reinos, tingiu a terra de Marhí até que o chão se tornasse para sempre vermelho. E, mais ousado que todos antes dele, ergueu a espada contra o próprio Paraíso. E venceu, feriu deuses e derrubou alguns dos mais antigos. Por isso, quando o mensageiro chegou com a bandeira branca e o selo de Odélio, o Deus Supremo, ninguém acreditou, mas era verdade. Como pedido de paz, Odélio oferecia ao rei o que tinha de mais precioso: seu filho - o mais belo, o mais raro - Ynahy. Um presente ou um sacrifício? Depende de quem conta. Ao recebê-lo, dizem que Yarek provou de um sentimento capaz de contrariar tudo o que o moldou e que amou e foi amado. Foi então que a lenda se partiu em duas. Para o povo, Yarek permaneceu o monstro: o rei cruel que destrói tudo o que toca, inclusive o jovem divino que recebeu. Muitos juram que o príncipe sumiu em suas mãos, que a beleza do presente foi desperdiçada, que o lobo o matou. Mas há murmúrios e alguns poucos, e duvidosos livros, que diizem que o rei jamais encostou a mão no príncipe. Dizem que, pela primeira vez, Yarek amou algo além da própria escuridão. Amou com tudo o que tinha e perdeu com a mesma brutalidade. Dizem que foi amaldiçoado e esse amor, lindo ou terrível, nunca poderia ser vivido. Tudo isso por ter manchando o templo. E assim a lenda segue rodando entre os povos de Marhí: O lobo perdido que encontrou o homem esquecido e o Destino, cego e cruel, decidiu que nenhum dos dois merecia um final feliz.
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